domingo, 31 de julho de 2011

montanhas

Claro que como toda mocinha da minha idade
depois de assistir à Noviça Rebelde eu dançava no quarto,
braços abertos girando e sorrindo alegre,
completamente possuida pelo espírito da freirinha preceptora.

Havia algo no filme que eu queria tomar pra mim: a montanha.

Crescí ouvindo descrições de passeios na montanha pela nonna Terezza e pela avó Bertha.
Era num tempo em que as paisagens faziam parte do cotidiano, dos sonhos, dos medos, das festas...

Nonna Terezza contava dos piqueniques feitos na encosta  da montanha.

Quando os italianos ainda podiam se valer do que produziam,
no outono, ao se haver sazonado a frutificação,
as mulheres da família e vizinhas, reuníam-se pra fazer conservas e compotas, moer grãos,
os homens providenciavam o fumeiro e preparavam-se as carnes a serem defumadas.

Arranjavam então um farnel com coisas das que haviam aprovisionado pra aguentar o inverno
e na encosta da montanha providenciavam um ballo.
Claro que levavam seus instrumentos musicais  e no local escolhido,
que devia oferecer uma bela vista, sentavam-se  sobre mantas dobradas
e apoiavam cachos generosos de uvas verdes e rosadas em varinhas finas
que se estendiam para além da largura de regatinhos que corriam  montanha abaixo,
formados pela neve ainda não firme


Durante o tempo em que as pessoas manducavam a refeição de presunto e panccetta defumados
queijo de cabra,  pão regado a azeite e basilicato seco, tudo caseiro, claro que regado a vinho da casa,
e ainda enquanto cantavam e dançavam festejando a  generosidade da terra e pela simples alegria de viver;
permaneciam ali os bagos enfeixados nos cones tão bonitos,
megulhados na água barulhenta,
que se agitava ligeira morro abaixo, refrescando e lavando as frutinhas.

Daí  recolhiam-se as uvas polpudas e muito geladas
que eram trincadas com com os pré molares
e alguns gritinhos porque doía morder.
 -Então porque faziam, nonna?
 -No lo so.
Um suspiro, um muchocho, uma olhada fixa em mim...e a conclusão:
 -L'amore c'e lo´ stesso ...Machuca un po' quello lá tamem...


Oma Bertha contava que no início da primavera subiam a montanha,

bandos de moços e moças, portando as roupas de lã verde,
coletes e meias 3/4, muito coloridos, capotinhos curtos de camurça,
provisões e cobertores nas mochilas.
Subiam parando num que outro ponto pra espiar Innsbruck pequenininha lá embaixo.

Alguns levavam flautas ou rabecas,  sanfonas ou clarinetas...
Acampavam na montanha por uns dias, colhiam edelweiss,
que ela ainda conservava, secas,  numa caixinha de porcelana sobre a penteadeira e me mostrava às vezes.
À noite eles cantavam, dançavam e se protegiam do frio do monte e do resto do inverno,
valendo-se de fogueiras e do calor dos corpos uns dos outros.
Dormiam muito juntinhos.

Daí com uma risada bem malandra ela completava:
 - Qguado o  xente decía tinha porrçon do moços do bochecho bem verrmelho.
(eram moços e moças muito encabulados)
Entón qguando xegaffa verron tinha porrçoon de casamentos
e cegonias fassendo ninho ne chaminé de porrçoon dos casa lá...

Quer saber? eu adoro me lembrar das coisas que as "minhas" mulheres me contavam...

                                                              então inté jacaré...

2 comentários:

  1. E eu adoro, adoro ler!
    Beijinhos pra você, Maliu!

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  2. Olá, Silvia doçura,
    Fico tão feliz! Obrigada.

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Olá, deixe seu recado para mim :o) Um beijo, Maliu