sábado, 7 de julho de 2012

De novo nove de julho.

Dia mal aberto, horizonte cor-de-rosa e berilo.

Friorento e mal agasalhado o menino com cara de índio,
alegrinho e buliçoso entregava o pão de porta em porta,
levados numa cesta de vime fixada na bicicleta.

Ele assobiava prá espantar os fantasmas das suas mágoas.
Pois é, ele as tinha.

A mãe morrera, ficara sob a guarda do pai severíssimo,
justo porém duríssimo que embora não ministrasse castigos físicos,
era um crítico cruel, e tornava a vida insuportável,
mantendo com os filhos a disciplina férrea que ele mesmo recebera dos jesuítas.
 
Entregar o pão para ganhar o pão,
era a menor das penas que a vida imputara àquele menino
que mal completara doze anos e já se sentia
absolutamente dono do seu destino. 

Além disso tinha todo o salário para gastar e ele adorava roupas.

A padaria lhe fornecia cama e refeições.
Dormia em "prateleiras" de concreto: beliches de três andares ligados à parede
com pijamas e lençóis feitos dos sacos
de farinha e de açúcar (ninguém veria mesmo!)
que a padaria fornecia de graça.

Sempre havia um padeiro casado que pedia à sua mulher
que fizesse pijamas para o  órfão da vez.
Daquela vez era ele.

Havia um ganho secundário nesse trabalho:
à noite, enquanto ouvia a arenga dos padeiros e ria das suas anedotas
ele cortava cuidadosamente algumas palhas,
justinho no feitio das tampas das garrafas de leite
e fazia os cordões para amarrar.

Era como se usava naquele tempo.

Conhecedor do trajeto do leiteiro ele cumpria seu próprio roteiro,
dando um jeito pro leite ter sido entregue antes do pão.

Manhã cedinho, as ruas vazias,
ele abria a garrafa deixada em uma ou outra casa,
que ele variava sempre, pra não se denunciar
e tomava no gargalo um gole de leite fechando em seguida
com a palha e o cordão adrede preparados.

Os padeiros perceberam seu expediente.

Um dia um deles pediu ao garoto que ele pusesse um papelsinho
na caixa do pão de uma certa casa de uma determinada rua.
" Não deixe ninguém ver!" Foi a ordem.

Ele tentou protestar mas os demais padeiros mostraram que
se ele tinha tecnica e sutileza pra tomar o leite
ele seria bem capaz de cumprir essa nova tarefa.

E assim ele fez.

Não por elegancia mas por timidez
não perguntou o que estava escrito nos recados lacrados.

De início ele pensou que estava deixando
poesias e carinhos pra uma  bonita cabocla,

depois o número de bilhetinhos  que ele teve que entregar
e a variedade de endereços,
fez com que o José Menino Tolosa entendesse que havia se tornado
um mensageiro da Revolução Constitucionalista.

"Quando se sente bater, no peito heróica pancada,
deixa-se a folha dobrada, enquanto se vai morrer."

Ele viu que alguns padeiros deixaram a folha dobrada.

Ele parou de tomar o leite alheio.
Não como um comportamento maduro e sim como uma forma de honrar os colegas mortos.

                                      até já!

5 comentários:

  1. Marli, amei! Posso sugerir a Esther e Ana Laura fazerem dessa linda memória um Senhora do Tempo no PF? Nem vou esperar resposta. Bj, vera

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    1. Olá Vera, Que bom que você me lê! Claro que pode fazer o uso que lhe aprouver. A casa é sua!

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  2. nossa, Maliu, que crônica linda! amei!

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  3. Olá Eloisa, Eu sempre fico vaidosíssima com seus comentários. Obrigada.

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Olá, deixe seu recado para mim :o) Um beijo, Maliu